Compliance ganha papel estratégico diante de sanções e riscos geopolíticos em evento do IBP
Com patrocínio da Petrobras, Compliance Talks reuniu executivos e especialistas para debater integridade, cadeias globais e proteção dos negócios
As mudanças no cenário geopolítico, a ampliação das sanções internacionais e a crescente complexidade das cadeias globais de fornecimento colocaram o compliance no centro das decisões estratégicas da indústria de energia. O tema foi debatido no Compliance Talks, evento promovido pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), com patrocínio da Petrobras, nesta terça-feira (14.07), reunindo executivos, especialistas jurídicos e profissionais do setor.
Na abertura, o gerente de Compliance da Origem Energia e coordenador da Comissão de Compliance do IBP, Maurício Ribeiro, destacou a importância da troca de experiências e boas práticas. O diretor executivo Corporativo interino do IBP, Victor Montenegro, lembrou que o Instituto aborda o tema desde 2017 e ressaltou a relevância de encontros qualificados para fortalecer a agenda de integridade.
O presidente do IBP, Roberto Ardenghy, afirmou que o novo mapa de riscos e as transformações geopolíticas têm provocado mudanças regulatórias e alterações nas cadeias globais. Segundo ele, o compliance deixou de ser apenas um sistema de governança e passou a ser essencial para uma indústria conectada, responsável e capaz de contribuir para o crescimento econômico.
“O compliance é fundamental para gerar transparência e integridade nas informações. Esperamos estimular o debate e apoiar o setor na preparação para os desafios futuros”, afirmou Ardenghy.
Ao contextualizar o cenário internacional, o coordenador de Análises Técnicas do IBP, Aldren Vernersbach, explicou que as sanções deixaram de se limitar a embargos amplos e passaram a atingir de forma mais direcionada bancos, investidores, ativos, empresas e setores específicos.
Segundo Vernersbach, a atual fase ganhou força com o combate ao financiamento do terrorismo, as restrições relacionadas aos programas nucleares do Irã e da Coreia do Norte e, posteriormente, com as medidas adotadas após a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014. A guerra na Ucrânia e as tensões entre Estados Unidos e China aumentaram ainda mais a complexidade do ambiente de negócios.
“A leitura geopolítica se transformou em uma forma de sobrevivência. O compliance é fundamental para proteger os negócios, preservar o valor das companhias e fortalecer a governança corporativa”, disse.
No painel “Sanções internacionais e os desafios do compliance” - moderado por Sancler Cardozo, head de Compliance da Constellation -, o diretor executivo de Governança e Conformidade da Petrobras, Ricardo Wagner, destacou que empresas com atuação internacional precisam conhecer não apenas seus parceiros diretos, mas toda a trajetória comercial e logística das operações.
“Não basta saber com quem estamos fazendo negócios. É necessário entender como o produto será transportado, para quem poderá ser revendido e quem será o destinatário final”, afirmou. Segundo Wagner, as análises devem alcançar fornecedores, fusões, aquisições e outras operações, com documentação capaz de comprovar transparência e integridade.
O gerente de Integridade e Ética da Foresea, Felippe Vasconcellos, ressaltou a necessidade de ampliar a cultura de compliance na cadeia de fornecedores. Ele explicou que parceiros comerciais passam por homologação e análise de riscos antes do início ou da continuidade das operações.
Já Raphael Soré, sócio do Machado Meyer Advogados, afirmou que falhas na avaliação de terceiros podem encarecer o crédito, limitar mercados e prejudicar a reputação das companhias. “Um bom programa de compliance é baseado em análises de riscos e depende do apoio dos conselhos e comitês de ética”, destacou.
O segundo painel, “Supply chain global e riscos geopolíticos no compliance”, foi moderado por Michel Sancovski, sócio da Tauil & Chequer/Mayer Brown.
Luciana Cardoso, especialista em contratos e compradora da Chevron, afirmou que mesmo fornecedores antigos precisam ser monitorados continuamente. Segundo ela, mudanças geopolíticas impactam diretamente os processos de contratação, compras e avaliação de riscos.
O coordenador de Compliance da TechnipFMC, Antônio Pimentel, observou que guerras e restrições comerciais podem provocar atrasos, aumento de custos e contratação emergencial de novos fornecedores. Nessas situações, compliance e jurídico devem atuar de forma integrada, com atenção a intermediários, pagamentos antecipados e documentação das decisões.
A presidente do Instituto Compliance Rio, Tereza Gorito, apontou aumento de custos, instabilidade política e ESG entre os principais riscos para a cadeia de óleo e gás. Para ela, as empresas precisam mapear fornecedores, compreender a cadeia de valor e integrar compliance, jurídico e suprimentos para antecipar medidas de mitigação.